VPPB , a "tontura dos cristais"
- Clinica Médica e Neurológica Bernardo Felsenfeld
- 22 de ago. de 2023
- 4 min de leitura
Já ouviu falar em Vertigem Posicional Paroxística Benigna? Você já teve uma tontura quando deitou na cama, quando levantou a cabeça para pegar algo no alto ou ao girar a cabeça no travesseiro?
Você pode estar com VPPB, sigla que deixa o nome um pouco mais fácil, concorda?

Vertigem posicional paroxística benigna (VPPB) é o nome, aparentemente complexo, que produz crises agudas) de tontura rotatória recorrente (Vertigens) de curta duração e de início inesperado (Paroxísticas), desencadeadas por certas mudanças na posição da cabeça (Posicionais) em determinadas direções. Por que Benigna? Por se tratar de uma disfunção do sistema de equilíbrio, sem sinais de malignidade nem alterações do sistema nervoso central.
É uma das causas mais comuns de vertigem, popularmente como “tontura dos cristais” mas muitas vezes os pacientes chegam descrevendo-a como a famosa labirintite.
Os casos reais de labirintite são raros e geralmente ocorrem após uma infecção viral das vias aéreas que inflamem o labirinto e podem comprometer tanto o equilíbrio quanto a audição.
Na verdade, na VPPB, não existe nenhuma inflamação do labirinto, sendo sim uma alteração estrutural e funcional, levando a episódios breves de vertigem rotatória acompanhada de náuseas, que geralmente surgem ao deitar ou levantar, bem como ao erguer ou abaixar a cabeça.

BREVE ANATOMIA DO OUVIDO INTERNO
Nosso ouvido possui duas principais funções: a audição e o equilíbrio corporal. A parte envolvida na audição denomina-se cóclea. A parte envolvida no equilíbrio é formada por canais semicirculares em forma de laço (3 de cada lado) que formam o Labirinto ósseo e por dois órgãos ósseos, o sáculo e o utrículo, que em conjunto formam o labirinto membranoso. O interior destas estruturas são revestidas por terminações sensoriais que enviam informações ao nosso cérebro informações indispensáveis para a percepção dos movimentos e manutenção do equilíbrio, além de fornecer orientação espacial e ajudar na movimentação conjugada do olhar.
Imersos num líquido chamado endolinfa que preenche o interior das câmaras existentes no sistema vestibular, existem cristais de carbonato de cálcio denominados otólitos, que têm por função manter o equilíbrio postural. Esses cristais são responsáveis por detectar acelerações lineares da nossa cabeça, como quando estamos em um elevador, subindo ou descendo, ou quando andamos para frente ou para trás.

QUANDO OCORRE A VPPB ?
A presença de fragmentos danificados desses cristais que se deslocaram para dentro dos canais semicirculares, especialmente para o canal posterior, acaba irritando as terminações nervosas ali existentes e precipita crises de vertigem rotatória recorrentes, desencadeadas por mudanças bruscas na posição da cabeça (tipo ir numa montanha russa), por algum tipo de traumatismo craniano, ou por condições degenerativas próprias do envelhecimento. Na maioria dos casos, perto de 70% deles, a causa primária que leva a essa perturbação é idiopática, ou seja, não esclarecida.
A VPPB pode manifestar-se em qualquer idade, mas é raro na infância e fica cada vez mais frequente a partir dos 60 anos, quando o risco de quedas e fraturas como complicação da doença gera atenção e cuidados especiais.
SINTOMAS DA VPPB
Tipicamente o paciente com VPPB descreve ataques de vertigem rotatória, de curta duração e forte intensidade desencadeados por movimentos rápidos da cabeça, sendo os mais freqüentes os seguintes: levantar da cama pela manhã, deitar e virar na cama, estender o pescoço para olhar para o alto e fletir o pescoço para olhar para baixo. Em pé, ataques desencadeados por movimentos bruscos podem levar a quedas, ou em casos menos intensos o paciente pode referir tendência a queda para trás.
Os episódios de VPPB podem variar quanto à duração, recorrência e gravidade dos quadros. Podem ser acompanhados de náuseas, vômitos, perda do equilíbrio, instabilidade postural e o nistagmo, movimentos oscilatórios, rítmicos e involuntários dos olhos em várias direções.
Vale ressaltar que a VPPB não gera nenhum sintoma no ouvido, como perda de audição, zumbido ou sensação de ouvido tapado. Se o paciente tiver sintomas auditivos junto com a tontura, devemos pensar em outros diagnósticos.

DIAGNÓSTICO DE VPPB
O diagnóstico é muito simples, baseado na história típica dos sintomas associado a manobras que desencadeam as crises de tontura.
A manobra de Dix-Hallpike (mostrada na figura acima) é o teste mais utilizado para confirmar o diagnóstico da doença com maior segurança e identificar os locais do labirinto que estão comprometidos. Ela consiste em posicionar a cabeça do paciente, deitado na maca, em uma posição específica para observar se é desencadeia a vertigem e o nistagmo (sendo então importante o paciente manter os olhos abertos durante a avaliação).
Em casos de dúvida, pode-se também pedir exames de imagem, como a ressonância magnética, importante para estabelecer o diagnóstico diferencial com outras afecções centrais que possam apresentar sintomas semelhantes, algo felizmente bem infrequente.

TRATAMENTO DA VPPB
Uma vez que o paciente apresente vertigem rotatória nessa posição ou manifeste o nistagmo característico, está feito o diagnóstico e podemos partir para o tratamento.
Diferente do que se imagina o tratamento não se baseia nos tradicionais medicamentos antivertiginosos.
A VPPB tem cura simples através de um procedimento que pode ser realizado no próprio consultório médico, durante a consulta. É chamada de manobra de reposicionamento canalicular, preconizada pelo dourtor John Epley, otorrinolaringologista americano, a popular manobra de Epley.
O procedimento leva apenas alguns minutos para ser executado. Basicamente, consiste na realização de uma série de movimentos e posições da cabeça e do corpo que visam à liberação e o reposicionamento das partículas de cristais que se desprenderam do utrículo e migraram para os canais semicirculares.
Os pacientes costumam responder bem logo à primeira aplicação das manobras de Epley (vide a figura acima), desde que corretamente executadas. São realizadas por neurologistas, otorrinos e fisioterapeutas. A manobra corretiva é rápida, simples e muito efetiva! Cerca de 90% dos pacientes já melhoram após uma única manobra e uma parcela muito pequena precisa de uma segunda manobra para tratamento.

Caso a recuperação não seja completa, outras manobras de reposicionamento vestibular são orientadas para que o paciente realize em casa. A manobra de Semont (figura acima) é a mais usada, com o paciente sendo orientado a deitar alternadamente para direita e para a esquerda, e a manter o decúbito por 40 segundos a 1 minuto, ou enquanto persistir a vertigem. O paciente é orientado a fazer esses movimentos por 2 a 3 vezes por dia, por alguns dias consecutivos, com altas taxas de remissão do quadro.
Nos pacientes tratados corretamente há um índice de recorrência de 30 a 45%. Para reduzir esse risco, orienta-se o paciente após a realização das manobras, evitar movimentos bruscos com a cabeça a fim de evitar o retorno das otocônias para o canal semicircular.
